domingo, 20 de novembro de 2011

Um dia de lembranças (Alívio)




Alívio não é necessariamente um prazer
É, às vezes, um bloqueio, às vezes, uma tábua
Mastigar os minutinhos, um por um
E no fim deles, ainda sobrar a força da busca
Contudo...

Pra quê?

No final das contas, um dia de alívio
É só mais um dia de lembrança
Qual vai esmagar teu raciocínio
Quando correr for só caminho

No entanto...

Eu já cansei de me explicar

Engraçado isso
Acho que alguém ouviu...
Eu?

Daniel Sena Pires – Um dia de lembranças (Alívio) (21/11/11)

Medo e lágrima



Medo brabo de não continuar navegando
Soda cáustica por sobre a pele descamada
Meio que de lado, vou opondo ao sacrifício
Cauterizando as feridas, Deus do céu... como dói
É a insensibilidade forçada...
Que dói no olho, e dentro do peito
Me arranque um braço, mas não me diga “sim”
Quando não o quiser dizer
Praguejar faminto é algo que entendemos bem
Eu, você, os pais dos outros...
Arrastar uma carcaça vazia por anos e anos
É o tipo de conduta pobre
É horrível se pensar sem saída
E se ver sem escolha, então?
Do alto e das esquerdas...
Que limbo me aguarda?
...

Isso é o atraso
O passado está contando agora sua vantagem
E é muito grande
Muito grande

E é amarga

E é lágrima

Desmaiar às sextas e acordar às segundas...

Eu faço a falta toda...
E fico tão pior comigo.

Daniel Sena Pires – Medo e lágrima (21/11/2011)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Do frio, da antivida e do filtro da alma



[O som da TV ao fundo]
Ando discutindo muito com meu estado
E me arrepiando pouco, quase nada
Me excitando com cada vez menos tempo
Hoje a coisa anda tão antivida
Que ouvi o frio sussurrando...
Esse medo gelado, atravessando a garganta
E ninguém sabe onde vai parar
Ou, ao menos, eu não sei
Às vezes não sei de nada
E está tudo na ponta da língua
Tanto que arde, por que mudar de assunto agora?
E por que ainda ter assunto?
Mais fácil o óbvio?
Ou não?
Perguntas com respostas cabisbaixas...
Nunca me ajudam em nada
Prefiro relatar o que eu mesmo vejo
O que eu mesmo provo
Disponho dos meus próprios ensejos
E com minhas próprias vitórias
Mesmo que secas do sol
Mas, juro por Deus, sobre todo o amontoado de derrotas
E ainda apontando para um “indo bem”
Imagine que toda chuva seja ácida
E que todo mundo está sem casa
Agora imagine que você não está nem aí
Esse tipo de insanidade tem me tirado o raciocínio
Mas eu “estou aí”...
E no fundo, no fundo...
É isso que me acaba
Estou tentando me ignorar
Mas como calo algo que vem de dentro?
Você pode cortar a língua da opressão, quase sempre
Mas jamais calará o seu próprio entendimento
Ou a própria falta dele
O que vem de você, só de você quer se alimentar
Por mais que seja impressionante isso que vou dizer:
“O máximo que podem ter de mim... é a ressaca de uma alma ébria, solitária, confusa, cansada... e com saudades demais.”
Tento filtrar... tento esconder
Horrível é ser julgado
Eu tento a casa, eu tento o amor
Eu tento a sorte, e tento a dor
Pais, coração, azar, intensidade
Onde vai dar?
Onde já estou?
Será que já estou onde vai dar?
Eu queria não precisar pensar nisso tudo.

Daniel Sena Pires – Do frio, da antivida e do filtro da alma (03/11/11)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"Boa" vida


E quem disse que é necessário que você me entenda?
Em nenhum momento de vida, faço fé de que isso venha a acontecer
Eu não preciso de ninguém

É... talvez tenhas falado isso pra si mesmo também
Ou ao menos pensado no quão bom seria não se apegar a ninguém
E que isso que soa idiota não é de todo válido

E se os outros não existissem?
E se a vida durasse apenas algumas horas?
E se eu pudesse escolher em que ponto da vida, essa vida não me dissesse mais como eu tenho que ser?

Porque esse parece ser o ponto da questão...
E tão angustiado, tão reprimido
O que custa deixar que eu seja assim?

Nem que eu viesse a ser sozinho
E o que tem de mais?

Por quê?

Na verdade hoje eu estou um chato todo
Quero que você cale a sua boca...
Prenda a respiração, e me deixe aqui

Por uns dias

Não, eu não quero conversar
Não, eu não vou desistir

Mas sim, vá embora

Me deixe aqui, por favor

Quando o coração começa a estalar
E o peito arde, e o medo é intenso
O melhor a se fazer é não fazer nada

Boa noite...
Boa vida!

Daniel Sena Pires – “Boa” vida (28/10/2011)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Atos de paz


Desde quando se ater aos fatos torna a vida mais suave?
Mal sabia eu que, quando em paz pensei, em paz nunca estive
Toda rocha que diz “não!”, mesmo quando atravessada, solidifica-se em parte na alma
Novamente, prometendo angústia ... e até promovendo-se aos pares de mim
Outros Eu’s que, em mim, em negro tom, matam com a facilidade do respeito negado
E me cobram sempre
Trabalhos inversamente proporcionais ao conforto
Um surto controlado por dia
Onde se compra ar, se troca amor, se vive denso
E no controle está sempre a falta de algo ... daí a mescla
Daí eu choro
Mas não mais que antes
Penso eu, mas não quero mais pensar em paz
Assim como é célebre o culto ao homem bom
Ou o mau homem, que, de tão mau, virou comum
Pois é assim que funciona, e é assim que maltrata
E o comum agora é bom
E eu?

A prova maior de força é a força que não se usa
E olhe que a covardia é uma palavra de dois gumes

Que noite quente, meu Deus
Que dias difíceis.

Daniel Sena Pires – Atos de paz (28/09/2011)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sete dias


Nessa semana, percebi o quanto perdi nos dias em que, pensando ganhar tudo
Mal cuidei do coração, nem corpo são
E todas as cavidades da alma preenchidas com falsidade
Algumas com nome e peso definidos
Numa lividez tão logo desespero
Palavra-chave na fuga sempre confusa
Por que sempre é mais fácil precisar de algo do que de alguém?
Remoendo injustiças, sob meu julgamento imparcial e (mesmo assim) manco
Os velhos amigos estão sempre mais inteiros do que eu
Câmbio ... quase nada é indolor
E quando se vai ... sabendo que o que ficou não nos pertence mais?

Só nos resta chorar com o nome na boca do passado
Autenticando mesmo o que opôs ao que se quis
Que se a vida é um mar aberto, numa imensidão de dar medo e dar prazer
E o sujeito não se tem, não se quer ou suporta
Fica difícil praticar qualquer paz
Um caminho ao se arrastar
Porém sempre existem mais pedras do que se pensa
As que são, e as que nos atiram ...

Daniel Sena Pires – Sete dias (12/09/2011)

domingo, 7 de agosto de 2011

Das velas, das portas e da alma




Não posso acender velas pra tudo
A cera arde sobre a pele, e não é porque sou eu
É porque tudo que é demais, um dia afoga
Ou enferruja … às vezes quebra
Às vezes mata
Achei brilhante o homem que me disse “seja!!!”
Também me dizer pra não ficar
Com suas próprias palavras, e seu próprio desespero
Mas me machucando por dentro, refletindo aqui fora
Alma, corpo …
Sabe as noites em que se acorda suado, com medo
Cansado, e se está só deitado?
Dizem que os olhos são a “porta da alma”
E num momento de desespero
Ao ver a porta fechada, ela se descontrola
Os sentimentos que obedecem ao corpo
Descontrolam a alma
E quando abrimos os olhos, e os chocamos com a parede
Ainda está lá … por uns dois segundos
Eu vi minha alma feito sombra
Com meu tamanho e meu jeito de fazer as coisas
Mas por hora, parecemos diferentes
Ela não sorri, e eu sim
Ela não gosta de sorrir
Ela dança, e eu não
Ela não sabe dançar
E mais uma vez, os moldes de corrupção do igual
E mais uma vez, menino … como sempre errei
Quero aliviar a pressão sobre o peito
A indagação sobre tudo
A massa que ainda está secando …
De um trabalho grande que tive de fazer
Pra não ter mais que pensar
Mas entre não fazer o que penso e não pensar no que faço
Prefiro aguardar o próximo pensamento
Quem sabe é mais um daqueles sorrisos em que já estou melhor.

Daniel Sena Pires – Das velas, das portas e da alma (08/08/2011)