sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

No fim das contas



Sentei em frente à vidraça
Talvez fosse dia ainda, mas nem importava muito
O último cigarro ainda enchia a sala de fumaça
Da garrafa de vinho, talvez só duas gotas na rolha
E hoje não é dia pra mais uma
Como tudo se tornou isso?
Como as coisas são tão fúteis agora?
Pela manhã, o cansaço é espiritual
Já à tardinha, o corpo pede menos
E o dia vai-se indo, e não deixa força alguma
“Ah, mas viva o dia... você é o que você faz”
Alguém gosta de derrotas?
Ser vencido pelo tempo é uma maldição
Ser vencido pela vida, é aceitável... Mas não é certo
Ser vencido pela alma...
Mudei o pensamento, que tal lembrar a infância?
Melhor não
Outro dia, me socorri aos prantos lendo um pouco de Bukowski
E depois sorri, afinal, optei por ser assim
Concorda?
O detalhe é que há tempos não me importa concordar com ninguém
E não, ninguém escolhe as cicatrizes que quer carregar
E nem as feridas que se vão abrir
Ninguém quer sofrer
E só eu não consigo entender isso
A impressão é de que vivo cercado por gênios
E todos têm a cura nas mãos
Mas ninguém tem um inferno por dentro
E ninguém está cuidando de ninguém
Eu me esforço, o bastante... É o bastante?
Eu faço o que eu posso fazer
Faço?
Eu não queria confusão com ninguém
Acabei me confundindo comigo mesmo
Eu sou uma ave de rapina
Um pequeno pardal
Um roedor indefeso
E uma taça quebrada...
Não consigo transbordar, em nada
No fim das contas, acabo sempre secando, fugindo...

Daniel Sena Pires – No fim das contas (31/12/11)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Por alguém por aqui





Há quem diga que caminhar com cuidado
É pisar com a certeza que quem ama
Pois sozinho, ninguém ganha
E dizem mais...

Dizem que a esperança é um futuro amarelo
Que o bom mesmo é desviar dos acasos
Vencer todo dia, mesmo que doa
E vai doer, uma hora ou outra... Às vezes anos inteiros

O bom é ter-se em mente que...
Seja vida, seja sorte, seja coração, seja pensar
O poder de governo é nosso

Não existe isso de ganhar mais
Amar mais
Sofrer mais

O que é existe é a vida
Entrega e...
Superação

Quando as coisas não vão bem
Aquele tempo que poupamos...
Descontando as horas extras de medo e angústia

Cai bem...
Quem sabe no meio do colo
E é bom olhar pro relógio, e ver o tempo passar

Um dia é tic, no outro o tac
E assim vamos...

Hoje estou tentando um bom dia, todo dia
Às vezes, eu choro
Mas não é culpa minha

E se eu perco, ao menos...
Não me desespero mais.

Daniel Sena Pires – Por alguém por aqui (23/12/11)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Vida curta ao passado



Quem nunca viu, cedo, na matina, o corpo, ainda preguiçoso, repulsar o dia?
Bem, tudo é composto de querer...
Se hoje você está triste, o seu querer não é obrigatoriamente longínquo
Ele pode até lhe ser vizinho
Pode lhe ter castrado a vida
Ter cuidado com o que se deseja, é cuidar pra não morrer pela boca
Ou morrer pelo corpo, pelo bolso
Pela casa, pelas manias
Pelo despreparo, pela impulsão
É cuidar de si, como se os seus pedidos fossem realmente atendidos
Não adianta olhar pro céu e abanar papéis em busca de consolo...
Se você se dissolve em seu próprio desespero
A angústia aprisiona, mas a liberdade é um bem...
E, como todo bem, ela mesma precisa de proteção
Em prol de nós mesmos, acredite...Só nós mesmos
Harmonia entre homens e outros homens...
É tão fácil quanto a vida de uma criança bandida
De uma mulher mal amada
De uma alma maltratada
O peso do passado, às vezes nega-nos até o próprio sono
O descanso que é bem-vindo
Vida curta ao passado
Que quando o presente tiver ido, e no futuro nos encontrarmos
Fantasmas e dores imprecisas, tenham ficado...
Não no esquecido, pois não acontecerá
Mas sim, submissas, sob camadas de esperança.

Daniel Sena Pires – Vida curta ao passado (13/12/11)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Não fosse o sol



Viver vale tanto quanto o ser se pode amar
E meu ser é todo amor
Pois aprendi que, mesmo em dor, posso voltar
E no topo, com minhas decisões
Jurando medo, ou minhas confissões...
Beijando sangue
Está tudo que disponho
E nada me prende
Sou dono da minha liberdade
Concedo-a a mim, quando bem me quero
Difícil é render seu próprio coração...
Preocupado com o coração dos outros
Ter “certeza” do que se sente
Na espera do vão alheio não mais existir
E eu sou assim
Não disse que era fácil
Nem disse que é bonito, feio, ou azul
A complexidade da minha face...
É solta ao mundo, como eu sou
Não sou dado, sou conquistado
E não sou tudo, mas pratico intensamente o meu “talvez”
Um quase poliglota bêbado de sono da sorte
Mas apostando alto
Com as fichas sempre ardendo
Eu sei onde estou pisando
Mas, mesmo assim, às vezes, tenho medo
Às vezes eu sonho com a tarde em que vi alguém me ver
E dá saudades
Às vezes nenhuma coisa me alivia essa saudade
E dá raiva
Meu ser é tão amante, coitado...
Sofre tão angustiado...
É horrível viver sempre com essa impressão de que...
Falta tão pouco, e que vou ser feliz.

Daniel Sena Pires – Não fosse o sol (11/12/11)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O uivo dos lobos viciados




Vira e mexe, eu sonho alto, que no espaço não há fim pro meu querer
Complicado, às vezes eu luto sozinho
Sem culpar ninguém, é meu melhor jeito de ser feliz
Quando eu grito muito, é sempre precisando de proteção
Demonstro fraquezas adversas
Catequizando todos os meus sentimentos
Vendando os olhos do fracasso interno
Que acompanha toda e qualquer diversão
Eu juro que não estou sorrindo
E o sofrer é o padecer da culpa
E isso é o que mata por dentro
Não basta só doer, a dor fica te culpando
A cabeça numa matemática devastadora
Numa incompreensão de dar emprego à morte
Fugir?
Eu só não posso mais ouvir só barulho

O uivo dos lobos viciados
Pois chegou a hora de roubar paz
Quero algo pra encostar
Um pouco de voz pra ouvir
Um pouco de tom, ao falar

Eu não tenho medo de mim
Ou eu não posso ter.

Daniel Sena Pires – O uivo dos lobos viciados (07/12/11)

domingo, 27 de novembro de 2011

Saudades, amigo... dorme bem




Vou sentir falta do teu abraço
Aquele com o corpo todo...
Não esqueço nunca que sempre ao chegar
Você me recebia, com sorrisos saltitantes
E aquela carinha de bobo
Mas eu não quero mais chorar
...

Você me fez molhar o papel todo

...

O ruim é que você estaria aqui agora
O ruim não... o devastador
Eu não posso mais falar com você
Mas promete que vai me ouvir ainda?
Hem?
E onde você estiver...
Olha só o que você fez!
...

Vou sentir falta disso também

...

E apesar de hoje ser um dia daqueles horríveis
Em todos os sentidos...
Ainda lembro de todas as marcas, de todos os gritos
Da companhia...
De você entrando comigo pela casa escura
Porque eu tenho medo(E agora?)

...

Você foi feliz, não foi?
Hem?

...

Te amo.

Daniel Sena Pires – Saudades, amigo... dorme bem (28/11/2011)

domingo, 20 de novembro de 2011

Um dia de lembranças (Alívio)




Alívio não é necessariamente um prazer
É, às vezes, um bloqueio, às vezes, uma tábua
Mastigar os minutinhos, um por um
E no fim deles, ainda sobrar a força da busca
Contudo...

Pra quê?

No final das contas, um dia de alívio
É só mais um dia de lembrança
Qual vai esmagar teu raciocínio
Quando correr for só caminho

No entanto...

Eu já cansei de me explicar

Engraçado isso
Acho que alguém ouviu...
Eu?

Daniel Sena Pires – Um dia de lembranças (Alívio) (21/11/11)

Medo e lágrima



Medo brabo de não continuar navegando
Soda cáustica por sobre a pele descamada
Meio que de lado, vou opondo ao sacrifício
Cauterizando as feridas, Deus do céu... como dói
É a insensibilidade forçada...
Que dói no olho, e dentro do peito
Me arranque um braço, mas não me diga “sim”
Quando não o quiser dizer
Praguejar faminto é algo que entendemos bem
Eu, você, os pais dos outros...
Arrastar uma carcaça vazia por anos e anos
É o tipo de conduta pobre
É horrível se pensar sem saída
E se ver sem escolha, então?
Do alto e das esquerdas...
Que limbo me aguarda?
...

Isso é o atraso
O passado está contando agora sua vantagem
E é muito grande
Muito grande

E é amarga

E é lágrima

Desmaiar às sextas e acordar às segundas...

Eu faço a falta toda...
E fico tão pior comigo.

Daniel Sena Pires – Medo e lágrima (21/11/2011)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Do frio, da antivida e do filtro da alma



[O som da TV ao fundo]
Ando discutindo muito com meu estado
E me arrepiando pouco, quase nada
Me excitando com cada vez menos tempo
Hoje a coisa anda tão antivida
Que ouvi o frio sussurrando...
Esse medo gelado, atravessando a garganta
E ninguém sabe onde vai parar
Ou, ao menos, eu não sei
Às vezes não sei de nada
E está tudo na ponta da língua
Tanto que arde, por que mudar de assunto agora?
E por que ainda ter assunto?
Mais fácil o óbvio?
Ou não?
Perguntas com respostas cabisbaixas...
Nunca me ajudam em nada
Prefiro relatar o que eu mesmo vejo
O que eu mesmo provo
Disponho dos meus próprios ensejos
E com minhas próprias vitórias
Mesmo que secas do sol
Mas, juro por Deus, sobre todo o amontoado de derrotas
E ainda apontando para um “indo bem”
Imagine que toda chuva seja ácida
E que todo mundo está sem casa
Agora imagine que você não está nem aí
Esse tipo de insanidade tem me tirado o raciocínio
Mas eu “estou aí”...
E no fundo, no fundo...
É isso que me acaba
Estou tentando me ignorar
Mas como calo algo que vem de dentro?
Você pode cortar a língua da opressão, quase sempre
Mas jamais calará o seu próprio entendimento
Ou a própria falta dele
O que vem de você, só de você quer se alimentar
Por mais que seja impressionante isso que vou dizer:
“O máximo que podem ter de mim... é a ressaca de uma alma ébria, solitária, confusa, cansada... e com saudades demais.”
Tento filtrar... tento esconder
Horrível é ser julgado
Eu tento a casa, eu tento o amor
Eu tento a sorte, e tento a dor
Pais, coração, azar, intensidade
Onde vai dar?
Onde já estou?
Será que já estou onde vai dar?
Eu queria não precisar pensar nisso tudo.

Daniel Sena Pires – Do frio, da antivida e do filtro da alma (03/11/11)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"Boa" vida


E quem disse que é necessário que você me entenda?
Em nenhum momento de vida, faço fé de que isso venha a acontecer
Eu não preciso de ninguém

É... talvez tenhas falado isso pra si mesmo também
Ou ao menos pensado no quão bom seria não se apegar a ninguém
E que isso que soa idiota não é de todo válido

E se os outros não existissem?
E se a vida durasse apenas algumas horas?
E se eu pudesse escolher em que ponto da vida, essa vida não me dissesse mais como eu tenho que ser?

Porque esse parece ser o ponto da questão...
E tão angustiado, tão reprimido
O que custa deixar que eu seja assim?

Nem que eu viesse a ser sozinho
E o que tem de mais?

Por quê?

Na verdade hoje eu estou um chato todo
Quero que você cale a sua boca...
Prenda a respiração, e me deixe aqui

Por uns dias

Não, eu não quero conversar
Não, eu não vou desistir

Mas sim, vá embora

Me deixe aqui, por favor

Quando o coração começa a estalar
E o peito arde, e o medo é intenso
O melhor a se fazer é não fazer nada

Boa noite...
Boa vida!

Daniel Sena Pires – “Boa” vida (28/10/2011)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Atos de paz


Desde quando se ater aos fatos torna a vida mais suave?
Mal sabia eu que, quando em paz pensei, em paz nunca estive
Toda rocha que diz “não!”, mesmo quando atravessada, solidifica-se em parte na alma
Novamente, prometendo angústia ... e até promovendo-se aos pares de mim
Outros Eu’s que, em mim, em negro tom, matam com a facilidade do respeito negado
E me cobram sempre
Trabalhos inversamente proporcionais ao conforto
Um surto controlado por dia
Onde se compra ar, se troca amor, se vive denso
E no controle está sempre a falta de algo ... daí a mescla
Daí eu choro
Mas não mais que antes
Penso eu, mas não quero mais pensar em paz
Assim como é célebre o culto ao homem bom
Ou o mau homem, que, de tão mau, virou comum
Pois é assim que funciona, e é assim que maltrata
E o comum agora é bom
E eu?

A prova maior de força é a força que não se usa
E olhe que a covardia é uma palavra de dois gumes

Que noite quente, meu Deus
Que dias difíceis.

Daniel Sena Pires – Atos de paz (28/09/2011)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sete dias


Nessa semana, percebi o quanto perdi nos dias em que, pensando ganhar tudo
Mal cuidei do coração, nem corpo são
E todas as cavidades da alma preenchidas com falsidade
Algumas com nome e peso definidos
Numa lividez tão logo desespero
Palavra-chave na fuga sempre confusa
Por que sempre é mais fácil precisar de algo do que de alguém?
Remoendo injustiças, sob meu julgamento imparcial e (mesmo assim) manco
Os velhos amigos estão sempre mais inteiros do que eu
Câmbio ... quase nada é indolor
E quando se vai ... sabendo que o que ficou não nos pertence mais?

Só nos resta chorar com o nome na boca do passado
Autenticando mesmo o que opôs ao que se quis
Que se a vida é um mar aberto, numa imensidão de dar medo e dar prazer
E o sujeito não se tem, não se quer ou suporta
Fica difícil praticar qualquer paz
Um caminho ao se arrastar
Porém sempre existem mais pedras do que se pensa
As que são, e as que nos atiram ...

Daniel Sena Pires – Sete dias (12/09/2011)

domingo, 7 de agosto de 2011

Das velas, das portas e da alma




Não posso acender velas pra tudo
A cera arde sobre a pele, e não é porque sou eu
É porque tudo que é demais, um dia afoga
Ou enferruja … às vezes quebra
Às vezes mata
Achei brilhante o homem que me disse “seja!!!”
Também me dizer pra não ficar
Com suas próprias palavras, e seu próprio desespero
Mas me machucando por dentro, refletindo aqui fora
Alma, corpo …
Sabe as noites em que se acorda suado, com medo
Cansado, e se está só deitado?
Dizem que os olhos são a “porta da alma”
E num momento de desespero
Ao ver a porta fechada, ela se descontrola
Os sentimentos que obedecem ao corpo
Descontrolam a alma
E quando abrimos os olhos, e os chocamos com a parede
Ainda está lá … por uns dois segundos
Eu vi minha alma feito sombra
Com meu tamanho e meu jeito de fazer as coisas
Mas por hora, parecemos diferentes
Ela não sorri, e eu sim
Ela não gosta de sorrir
Ela dança, e eu não
Ela não sabe dançar
E mais uma vez, os moldes de corrupção do igual
E mais uma vez, menino … como sempre errei
Quero aliviar a pressão sobre o peito
A indagação sobre tudo
A massa que ainda está secando …
De um trabalho grande que tive de fazer
Pra não ter mais que pensar
Mas entre não fazer o que penso e não pensar no que faço
Prefiro aguardar o próximo pensamento
Quem sabe é mais um daqueles sorrisos em que já estou melhor.

Daniel Sena Pires – Das velas, das portas e da alma (08/08/2011)

domingo, 31 de julho de 2011

Dando as costas à multidão



Enquanto a música, soando célebre, ia rompendo corações desatentos
Eu me pus ante a todos, cansado de trilhas e metas sem sentido
E, não nego, paralisado de medo
Chefe da minha humilde decisão
Dono de um pouco mais que eu não preciso
Aglomerados sujos, e imagine … ainda brancos de uma limpeza inventada
E dentro de todas as cabeças tão estranhamente tidas como sol
Eu vi saindo pequenos sacos vazios
Espalhando o imenso nada por toda complexa existência
Qualquer um que ligasse os pontos, perceberia que foco não predispõe intenção
Corações abandonados, vidas traumáticas, infâncias despedaçadas …
Vinho num quarto escuro, cigarros por sobre as cadeiras …
Levando-se em conta que “não importa nada”, que “se dói é porque queremos”
Fica mais fácil encarar a vida
Mas mesmo assim, eu ainda fico meio de lado
Tenho medo de tudo voltar, pois quando volta … arrasta
Mais que isso, arrasa … e sempre quebra um pedacinho de mim
Indisciplina da solidão, que mostra aos olhos que tudo é lindo
Mas somos feios de coração, por não haver motivos iguais aos de todos
Raios de sol somando-se às figuras das estrelas …
Como brilhos tão parecidos dizem coisas tão diferentes?
O dia que invade a noite, que nunca se entrega cedo … despencando à claridade
Quem sabe eu bole uma nova maneira de expor meus sentimentos?
Fechando a boca!
Mas nunca fecharei as portas …
Se vier, que venha … se já foi, que seja
Não posso me esconder atrás de silêncios maltrapilhos
Tenho que decididamente agir, pra não faltar
Um choro de alma gemendo tem me acordado ultimamente
Eu olho o quarto todo, e tremo … e divago

E nunca sei onde está.

Daniel Sena Pires – Dar as costas à multidão (01/08/2011)

sábado, 30 de julho de 2011

Mito comum



Bem eu suspeitei que ao não saber por onde andavam minhas palavras
Certamente durante o dia não saberia me conter em equilíbrio
Posso não surtar, mas não posso não sumir
E não estando, grito desimpedido, quem haverá de saber?
E que tantos rostos me olhando são estes agora?
Sinta como eu sinto, os minutos sugando vividez
O mal da angústia não é o choro, é o sal que fica
E nenhuma morte é pior do que essa em que se vive
Penetrando o futuro com a lentidão possessiva dos que já saúdam outras vidas
Letargia alimentada pela indiferença, más palavras, costas viradas
O que não justifica perante os olhos alheios de tão fácil desprendimento
Mas por dentro, carne, alma … nota-se de longe o embaraço
Deduzir planejamento sobre o que se sente, é impossível
Ninguém suportaria uma vida regada com mesmice, nessa retidão paranoica
A tese dos doutores do “saber viver bem” masturba seu próprio ego
“Coma o quanto puder” e “Viva por prazer e conquista … e só”
Ei, nem tudo é tão pateticamente banal
Hoje mesmo eu não soube o que fazer com uma dorzinha que me apareceu por não entender
Quando penso em algo absoluto, rivalizo com o que eu mesmo sou
O “vir a ser” é cada vez mais ido
Que mito doloroso, se tornando comum.

Daniel Sena Pires - Mito comum (30/07/2011)

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Cacos de vidro e tijolos inteiros




Dá gosto de sangue na boca
Tentar entender a criança que ainda é toda medo
Do escuro, dá pra se ver todos os focos de luz
E entre eles há uma felicidade ignominiosa
Mas quem dança aqui desse lado, nunca está bem
Ser solto e liberal?
Ser conde e sem casa?
Não entendo onde as coisas estão
Elas estavam aqui
Eu ando tão perdido quanto averso à vontade
A rouquidão matinal agora é pós meio dia
A procura por “paz” esgota-se ainda no primeiro momento
E outra hora ouvi uma voz estranha
Que disse: “Mas não é com você”
Parece bobo, e de soar tão mesquinho … parece maldade
Mas não é com você, agora sim …
É comigo, coisa de “eu e mim”
Sempre é

Sempre foi

Às vezes eu vejo pessoas jogando cacos de vidro e tijolos inteiros …
Em outras pessoas, pelo simples de fato de não entenderem o simples fato de que nem todo mundo tem que ser rigorosamente um particular seu

Isso dói

Eu já não sei o que dizer
E fazer … já se tornou decepcionante

Convivo com armas, com fogo
Com gente que não gosta de gente
Parece castigo …

Eu só queria acordar sorrindo
E gostar de estar de pé agora
E de ter estado em pé aos 11
E de ter estado em pé aos 12

Sabe?

Algo ainda vai valer a pena
Não é possível.

Daniel Sena Pires – Cacos de vidro e tijolos inteiros (Obrigado) (27/07/2011)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Hecate






Que carrasco tão cruel
Ceifador, tormento
Falta sono, calma e compreensão
E se, por insistência, o homem dorme sem luz
Ele vem com suas náuseas sabor morte
Cor de sangue, mentando o corpo todo
Que gozo vazio, que forma horrível
E depois, como conquista …
Revela suas formas cadavéricas
Imagens fortes, e as entranhas se tornam cactos
E tudo vem sangrando lá de dentro
Aqueles dias que o céu não está nem sequer cinza
É um amarelo medroso
E a terra quase que te engole num sopapo
E não adianta socar a parede
Nem cantar hinos de redenção
E nem parar de respirar na esperança de que tudo vá embora




É mal e é drástico, é cataclísmico
É um caos por dentro, e lá fora nem vento há
E …

As hastes do teu corpo, ele sabe onde estão …
Cada uma

E faz questão de tragar teu ar
Morrem teus direitos, e teu prazer é suicida
Pois já não é novo, ou intenso

:::: Sabe quando a gente torce pra que seja só um pesadelo?

:::: Sabe quando o peito se rasga todo, e você não entende nada, tamanha a inércia?

E vai-se longe
Em distância de espírito, confusão e desespero

Tempo, convivência e projeção …
Dizem algo que não varia, não inibe, não incita.

Tudo é profundeza.

Daniel Sena Pires – Hecate (30/06/2011)

sábado, 25 de junho de 2011

Julgar pra quê?


E se foi mais um alguém que se deveria perpetuar para sempre
É difícil explicar como dói sorrir pra mascarar essa mesma dor
Não há lugar, por mais especial que seja, capaz de apagar os traumas do “por que tem que ser comigo?”
E se tudo não tivesse sido assim, eu estaria bem?
Mas foi assim, e assim estou … e eu não estou bem
Cada noite sem dormir, esfaqueando a delicadeza
E vocês aí dialogando sobre como eu deveria me comportar
Eu não mudei tanto assim, ainda esbanjo sorrisos a quem nem conheço
Simpatia e perfeição, num perfeccionismo na busca de ser só um alguém bom
Se eu digo algo, e você não entende muito bem
Ou gesticulo momentaneamente à expressar o que seja
Não me julgue, não me prive
Não me escolha
Não me molde
Os meus fantasmas já fazem isso por mim
E qualquer coisa que eu conquiste, qualquer preço que eu pague
Qualquer nova angústia aterradora, ou canto bonito em luz e sombra
São meus

Acho que sofro porque amo demais
Todos vocês

E, convenhamos …
Qualquer um tem medo de abrir os olhos no escuro

É isso aí.

Daniel Sena Pires  -  Julgar por quê? (25/06/2011)


"No nosso momento mais sombrio
No meu pior desespero
Você ainda vai se importar?
Você estará lá?
Nas minhas provações e minhas tribulações
Pelas nossas dúvidas e frustrações
Na minha violência
Na minha turbulência
Pelo meu medo e minhas confissões
Na minha angústia e minha dor
Pela minha alegria e minha tristeza
Na promessa de um outro amanhã ..."

(Michael Jackson - Will you be there)

sábado, 18 de junho de 2011

Um dia pra se esquecer







Hoje eu me odeio
Queria eu que minhas navalhas funcionassem como as dos outros
“Uma volta, um amigo, um bom filme … vai passar.”
Nada passa, não pelo tempo suficiente da calma
Por que é tão difícil estar comigo, e me adotar junto a todos?
Minha mente se vangloria por não se preocupar
Às vezes, mal sabendo que o melhor seria não se julgar
Preciosismo dos conflitos, em se acharem tão importantes
Tão intensos quanto é verdade que o sangue corre
Tão mentirosos quanto é complicado deitar-se sobre a cama suja
Bobos e maldosos, mas tão meus
Caminho tortuoso, é esse mesmo
É o que ninguém quer …
É o que ninguém precisa …
E o que me jogam na cara que escolhi
Como se no começo de tudo, antes das falhas
Lá quando ainda fazia sentido me afastar da destruição
Eu tivesse carimbado o destino, dizendo a mim mesmo:
“Eu gosto da dor”
Por favor …
Dessa vez não
O dia de hoje merecia uma bomba
Preferiria vê-lo morrer calado
A me importunar assim, em horas e minutos doentes
Sombrios, e tão precisos de esquecer


Nem álcool
Nem nada

Quem sabe o sono …
Quem sabe um outro dia
Quem sabe?

Tudo anda tão escuro
Que dá medo de pensar em abrir os olhos.

Daniel Sena Pires – Um dia pra se esquecer (19/06/2011)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Homenagem ao rock, que ainda dorme


Ouvir um bom rock pela tarde, entrando na noite com a cabeça ainda girando
Fixado no que John suspirava
Sem saber porque Paul mal falava

Berros e doçuras, que se destacam e sobrevoam imensas quantidades de mim
Ainda bem que Renato me dissertou sobre isso
E que Freddie, com seu jeito avisante, me fez me ver ali dentro

E embora alguns morram pela causa
Que na verdade nem é essa …
Ouvir o que eu preciso, nunca vai ser desperdício de tempo

Falar da vida, é pra quem vive
Intensamente, ou por força
Sentimento, idealização, desconforto … condense isso!

Certa vez Jimmy Page disse … na verdade nem disse, apenas arpejou
Psicodélicos, Punks … malditos meninos mimados
Sujos, malcriados … verdadeiros

Ah, Humberto … se minha mãe soubesse que ainda nem tenho minha banda
Iria zoar comigo … Eu ando tão down, exagerado, beija-flor com as asinhas em sentimento

Vou sentar e ir até a China …
Voltar num Zeppelin
Soltar fumaça por sobre a água, de volta à escuridão



Daniel Sena Pires - Homenagem ao rock, que ainda dorme (15/06/2011)


[Beatles, Legião Urbana ...
Queen, Dire Straits, Led Zeppelin ...
Engenheiros do Hawaii, Ira ...
Joy Division, Nirvana ...
Capital Inicial, Metallica ...
AC/DC, Deep Purple ...
Muito obrigado]

Atento aos detalhes



Quero algo novo
Pois o dia hoje foi um tédio
Falei de mim e dos meus interesses
E sobretudo não falei do que eu quis
O que eu sentia era igual
O que me coube saber?
O que eu ouvi foi igual
O que me coube aprender?
Hoje estou tão chato
Que ler seria brincar de me esconder
Cantar seria brincar de escolher
E hoje eu não queria brincar
Eu queria sentir
Eu preciso viver
Talvez um
drink ou um café
Lá pela hora do “meu Deus do céu!”
Ou suspirar fumaça aos céus
Enquanto o corpo cede à sede de contato
Mas não, está sempre lá
O mesmo choro com voz de criança
O mesmo chute com força jovem
E a mesma vontade sem força alguma
Os olhos pesam, e o corpo já foi há muito
Deitado por sobre os ombros de uma vida desmedida
Nem é tão tarde
Pra falar a verdade, é cedo
O que assusta também
Aquele arrepio que dá na nuca
Quando conhecemos angústia
Quando sabemos o que é poder faltar
E tudo ao que me refiro é parte de mim
E se me engasgo comigo, eu tenho que me sair
Calei, pois nem voz eu tenho paciência em gerar
Falar sozinho cansa
E eu cansei de me ouvir
Não estou reclamando, só estou esperando ainda
Alguma hora será a minha
Algum dia será o meu
Atento aos detalhes …

Daniel Sena Pires  -  Atento aos detalhes (15/06/2011)

terça-feira, 31 de maio de 2011

O "ser monstro"



Eu sou um monstro, dividido em alguns capítulos notórios
Outros ruins, outros “criança”
Mas não machuco ninguém
Um monstro sem atitude
Que só assusta o coração
E fico de fazer medo, de ser terror
Emboscado por minhas próprias confissões
Aterrorizado pelo que eu mesmo causei
Monstro que sou
Bom nisso
Caminhando pelas ruas da cidade
Rastros de fumaça e pedaços do corpo
Pedaços de nada, rastros de procura
E quando passo gritando
Pela porta alheia
Que me viram o rosto
Ou me chamam “atraso”
Eu sou o que eu quero?
Eu nem me atrevo
Eu sou esse monstro
Com a força mais feia que existe
Que cadaveriza a emoção
Em prol de mais uns dias de ar
Pois é preciso obter retorno
Se não te dão, vá buscar!
E eu vou
Assustando quem gosta de mim
Mas, de certa forma, eu sou uma boa forma de ser
Monstro …
Ah!
Expulsar do peito o vapor
Que sobrou do último ataque de dor
Em um ébrio parecer
Com as palavras que me são mais assustadoras
Demonstro (de monstro) … qualquer racionalidade barata
Posso parar muito bem por aqui
Pronto.

Daniel Sena Pires – O “ser monstro” (01/06/2011)

sábado, 28 de maio de 2011

O quarto e seus vícios









Do nada, o escuro
Sabe aquela hora em que está tudo indo bem?
Não que a perfeição tenha feito morada em ti
E nos teus contatos, e nos teus domínios
Mas estás tranquilo, e consegues fechar os olhos
E ter vontade de abri-los

Não que tudo dê sempre certo
E nem que dê sempre errado
Mas as tendências apavoram, as angústias policiam
A mente espreita, mas mesmo assim …
Estás gostando do filme, da comida, da música no rádio
Da companhia que nem esperavas

Eu juro com todo o poder que essa palavra impõe
Que a melhor coisa no mundo, seria se eu estivesse errado
Sempre, e agora … muito provavelmente daqui a alguns minutos ainda
Mas não por gostar de falsidade
Ou procurar ser a atenção central
Longe disso, e de mais … e de tudo, se puder

É que eu tenho tanta certeza de que vai doer
Que me assusta
Mesmo certo, me assusto
Por que é de doer, é de assustar
E o que fica passível de conhecimento
Perde o sentido, simples assim … mas quem entende?

Sei que o que sinto jamais usará de força com você
Bradei hoje pela manhã que falho
Cantei pelo horário do almoço que não vivo
À tarde soletrei todas as letras que me lembram a vida
E já cochichei pela noite que força eu tenho
Usá-la predispõe motivo

O que te é mostrado como ócio
Falta … de disciplina e de agradecimento
Vício de usar e não usar

É algo que está na pele
Nos sentimentos
No ambiente

E assim como tu respiras
Eu também respiro
Mas tem dias que não quero.

Daniel Sena Pires – O quarto e seus vícios(28/05/2011)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Das dádivas, das tarefas e das dores


Uma leve dor de cabeça, como se todas as falhas fossem consignadas
E, uma por uma, viessem tratando o corpo com maldade
Como se ninguém gostasse de te chamar pra conversar
Porque você fala demais, e não escuta nada do que dizem
Outra hora, numa das conversas diárias com algo que ainda não identifiquei
Falando sozinho, ao sair do quarto, ainda desesperado … sono distante
O estopim:
Ver que as coisas não mudaram, mesmo eu tendo pedido tanto
Prometi a mim mesmo, ontem, que chorar é coisa do passado
Mas me sinto ainda com os setenta anos da adolescência
Apesar do salto, e de tudo ter sido tão fácil e rápido
As cicatrizes estão amontoadas sobre um pouco de vontade que resta
Vontade essa que pra ser vista, me pede pão, água e igualação
Eu não tenho nada, que vontade vou ter?
Gosto, adoro, amo … venero as vezes que consigo me olhar
E saber que sou eu
Queria eu tratar as coisas com menos fixação
Mas se alguém me prova, eu fico triste
Mas se alguém está padecendo, eu preferiria que fosse eu
Posso gostar tanto dos outros, e de mim que vivo todo dia no mesmo corpo, mesma casa, e conheço bons e maus “amigos”, numa mesma proporção?
Acabo me tornando um ator, fingindo que viver é tão simples
Encenando que não me importo se não tenho com quem comentar que hoje eu estava bem …
Mas que da noite em diante eu sumi, eu não sabia o que fazer
Procurei olhar pro céu, e pro chão
Pelo menos não vi distância em seus infinitos
É tudo a mesma coisa, disso eu sei
Assim como sei que esses dias vão voltar
Minha melhor amiga, hoje … foi uma folha de papel
Essa mesma já antes rabiscada de “não consigo”
Falar pra quê?
Se quem diz ouvir, me oferece o seu plágio
Se o caso fosse ser indecente, eu mesmo cortaria relações com a minha alma
E não precisaria ficar acordado até agora, esperando essa tempestade passar
Gostar pra quê?
Se o que eu ofereço já não é o bastante pra nada
E por incrível que pareça, eu gosto disso aqui
Gosto de entender as minhas coisas, de saber que nunca há de entender-se completamente nada
Em quaisquer aspectos possíveis e imagináveis
Tem horas que a falta é tão grande, que enche todo o corpo
Encorpando até sorriso
Entendeste agora?
Por hora, eu estou sozinho
E as dádivas quais tantos enchem a boca e proclamam ao mundo
Podem me ser tarefas, às vezes árduas …
Às vezes impossíveis
Mas olha aí o susto de novo:
Eu ainda consigo.

Daniel Sena Pires – Das dádivas, das tarefas e das dores (20/05/2011)

(Pois ele estava certo, soa até inútil e redundante, de minha parte, dizer que um gênio estava certo ... mas é preciso fazer-se ver, não por crueldade para com os otimistas, mas por aconchego a quem nem sempre faz parte do "coro dos contentes". - Sobre Van Gogh)

domingo, 15 de maio de 2011

De onde vem?



O momento é de espasmos em verdades
Creio e duvido ao mesmo tempo, abraço e ataco meus amigos
O clima pede mais em por-se em guarda
Fatos e sentido, nunca se cruzam se os espero
Potencial caindo

Até quando antes chuva e vinho me faziam não gostar de não gostar
Vivia um medo dessa mística faltar
E punha eu o rosto lá fora, sem medo da rua
Mas com uma profunda negação
Toda boa palavra é nostálgica

E todo bom rapaz é homem sofrido
Todo carinho cego, tão logo cortará teu coração

Toda carga vital é passível de recomeço
Sempre acabo perguntando, mas … interrogações pra quê?

Gosto de provar veneno
Assim me sinto mais preparado
Alerto o coração, qualquer tontura …
E puxo o gatilho, corro para a montanha mais próxima
Chamo por socorro, ou só me escondo até tudo passar

Foi sempre assim, aprendi a trabalhar minha mente
“Você não pode reclamar de tudo, nem tudo é seu”

Mas e se eu conquistar?
Mas e se eu morrer?

E se eu não gostar de morrer?
Há volta?

E se eu não gostar de conquistar?
O que eu vou fazer?

Toda a arrogância que é …
Pedir a culpa, pois não desculpas
Ou tudo o que é adverso …
Que não casa com o que teus dedos tolos escreveram numa juventude sem vida …
Não podem ser tão diferente do que és

Eu, enquanto distante …
Me poupo de todos

Mas e se eu gostar?

Daniel Sena Pires – De onde vem?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Rubrique SS A









De quem é a culpa disso tudo?
Quem foi que disse que pra amar é preciso que doa um tanto assim?
Um tanto que fere, que deixa inconsciente
Que corta o fluxo dos dias
Que acorda outras dores já findas
E como podem findas?

Não amo agora, o mesmo que amei quando conheci
Pois somos outras pessoas
Na convivência, e no “eu te amo” diário
Vamos nos tornando um pouco mais nós mesmos
Você não me entende, né?
Não falo de rotina, o amor ainda é o mesmo

Já te acordei por eu estar com frio
Já te beijei porque estavas cansada e era tarde
Já te acariciei por eu estar em falta de carinho
Já chorei pois, mesmo ao lado, não estavas ali
E mais dói morrer por dentro
Do que qualquer outra morte que me poupasse isso

Eu vou ficar bem
Bem
Bem

Eu vou ficar bem

Até que eu me convença que isso é que é a verdade

E que não nos temos mais

Porque depois …
Quando a dor fizer cócegas no meu corpo cansado
Vou saber que é falta
Vou saber que é a mesma
Aquela não finda

Mas que a culpa, se é que se pode chamar culpa, não é tua
Nem é minha

É desse amor que morre de medo de amar.

Daniel S P – Rubrique SS A (09/05/2011)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A matemática dos amantes



Uma vez passada a noite...
Raia o sol, como há de ser
Os olhos pesam por cansaço, pois uma noite só não revigora feridas assim tão profundas
O bom ainda existe e faz força, e dá força ... acalentando

Um alicerce movediço, onde se afunda com facilidade
A imensidão que é o espírito, parece desaguar num pequeno mar de mágoas
Os pensamentos desmerecem aquilo que o corpo quer, tudo é tão igual

O corpo hiberna, já não quer nada
Já não pede abrigo
E se esbarra frente a ventos contrários
Já não se entende, vazio ...
Demais

E se viessem à tona fatos que desconheço?
Enfrentaria com violência o que até então nem sabia existir?
Ou me entregaria por medo, por pudor?
Enfeitando o destino com marcas e cicatrizes ...
Indestrutíveis

Perguntas, às vezes pequenas lutas
Às vezes a razão de toda tristeza.

Daniel Sena Pires - A matemática dos amantes (22/03/2009)

Anjos sobrevoando corpos já sem vida


Nas noites escondidas entre dias ruins, sem muita coisa pra fazer
O sono é mesmo difícil, então, acordado, penso, nem penso
Me engano, esperando os olhos pesarem
É verdade que o desespero, que hoje me invade, mais tarde me trará paz?
Descartei a possibilidade de me forçar à dormir
Quero tudo fluindo naturalmente, vindo como há de vir
Sem adiantamentos, sem vestígios de mal-estar

Passar o dia deitado em uma cama com o mesmo cheiro
A vaidade se expressando em um banho por dia
Sem a necessidade de estar se mostrando forte ou preocupado
Essa é a vida dos sonhos
Dos pesadelos, pois pesadelos nada mais são que sonhos ruins
Vontades insanas, desejos da mais pura falta de opção
O cálice cheio de silêncio transbordará em fogo

Quem observa de fora, acha o descontrole um ato controlado
Uma maneira de reagir ao medo de agir
Mas nem sempre o descaso consigo mesmo atinge o alvo
Corpos já sem vida, que se movimentam sob a luz da espera
Respiram, estranhamente ... pondo medo a quem sorri para disfarçar
Não alimentar o desgosto é uma lição difícil
Que se aprendo com a perda de algo irreparável

Há algum tempo em que fará sentido viver?
Anjos que destroem males, destroem o ódio
Covardemente ... eu ainda dormir quando fui roubado
Só me restaram o corpo meio inerte ...
E a alma fina e frágil
Estou indefeso, preciso me confortar diante de algo bom
Mas o que é bom desonra o que eu sempre senti
Então?

...

Não seria tão mal recomeçar?

Daniel Sena Pires - Anjos sobrevoando corpos já sem vida (11/12/2009)

Discurso ao rapaz do espelho



E quem não quer alguém para amar e se esconder do que não quer sentir?
Decepção é uma consequência natural das coisas, não há o que temer
Driblar os empecilhos, talvez seja algo que alivie o cansaço mais adiante
Porém, se atreveres a curvar-te diante da vida, perderás teu fôlego
E, sem ar, o mundo perde o efeito belo e sensível
Os esconderijos não te receberão com o mesmo entusiasmo
Então terás poucos dias de descanso

Os gritos alegres do sol na janela, parecem estar brincando com teu rosto, sem banho ainda
Várias horas perdidas num sono com sabor de exercício forçado
O tempo foi algo que machucou a vida dos homens sós
Feições fechadas, semblantes desligados ... Corpos desgastados
Nada mais que lágrimas solidificadas na pele, no sangue ... na alma
E estar bem é um acaso tão raro, um sorteio no destino confuso
Votos dos mais sinceros desejos, se concretizando a poucas mentes

Há no amor, um doce apego a tudo
Há na vida sempre um espaço para amar alguém, amar algo
E por que não se apegar ao amor e por consequência à vida?
Se nos dias que se seguem simples, mas sozinhos
Te dá no peito saudades de tudo, e tudo falta
Não que mereças estar assim, mas o estás
Procuras o que amar, e te concentras, isso é ser dono de si

Não adianta pedir verdade
Tudo pode ser tão fácil, complicamos porque gostamos de sofrer
Buscando estar convicto do que te traz vontade e vitalidade
O resto te vem com um toque de descanso
Então te acalmarás, caro rapaz
Esqueça o velho espelho e vá ao encontro do que te "anima"
E ame tudo o que te faz bem

Daniel Sena Pires - Discurso ao rapaz do espelho (02/02/10)

sábado, 23 de abril de 2011

Perfeito




Primeiro diz-se honesto, pra depois catar o ouro
E sempre carismático, bandido… alienado
Rouba porque sabe ser possível, nem pestaneja
Faz do pobre, imagem burra… faz do senso, pedestal
Encontra outros tantos, que gostam mesmo é de mandar
Ignora necessidade, ignora passado, e o futuro é besteira
Trata logo de se manter em pé, cair é a certeza da perda em benefício próprio
Oh, Deus… que nosso povo fez pra sofrer tanto?

Daniel S.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Lenço Negro





Hoje vai ser assim, roupa nova
Tudo novo?
A expectativa de se achar no abraço com o alheio
É confortante até o confronto verdadeiro
O miúdo braço contornando uma criança atormentada
Faz-se forte, mas num enlaço nem sempre total
Lenço negro da noite, pintado sobre o corpo que dorme
Ainda sob as telhas macias, quais caem e não se vê que cortam
Cortam pernas, pensamentos … cortam meninos, cortam máquinas
Essa ponte eu-universo feita de pedidos
Cravada com meu ouro e meu cansaço
Pois tudo cansa, e é tão falho
Um século de existência bem sucedida, pressupõe muita decepção pelo caminho
Não pretendo me arrastar, ou me conceder final sem meio
Porém mentir e não sentir, já não faz parte do que é ser
Já vesti todas essas roupas que proclamam o “ser normal” …
E a que melhor me serviu está na sala, vendo TV e assassinando o futuro.

Daniel Sena Pires  -  Lenço Negro (13/04/2011)

sábado, 2 de abril de 2011

Chopin


Gritei, até que fosse falta o ar que eu tinha
E, quando sem voz, enfim me arrisquei a me mexer de novo
A tristeza é sempre um pedaço tão intenso
Que dissolvida entre os dias
Transeunte entre os diversos detalhes
Nem se percebe o quanto consome tentar mascarar
E quem há de entender o motivo?

Fiz fogo com os braços, e ardeu
Tudo o que corta, me assusta
E tudo o que me assusta, me incomoda
E o incômodo é presente demais, passado demais

Em todo caso, eu mesclo força e exorcismo
E assim, fica mais fácil superar qualquer tropeço

Tudo que seja belo, tem algo de triste
E se tem algo de triste, pretendeu salvar-se alguém.

Daniel Sena Pires  -  Chopin (03/04/2011)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Matéria-prima






Elegias espalhadas pela casa toda
O som no quarto, o som na sala, o som na bolsa
As unhas no chão, por onde tentei escapar

Existe ocupação tão dificultosa quanto perpetuar?
Eu juro que não sou o culpado por tudo
Tenho minha parcela em ação, mas e enquanto imóvel?
Enquanto eu aprendo, enquanto eu obedeço?
Posso contar mais de um segredo
E me manchar ainda sorrindo
Porém abduzir o que é mais perigoso se torna inevitável
Jamais serei curto, que se segure meus sentimentos com uma só mão
E nem tão infinito, que não se veja, e nem se sinta
A facilidade em não se esforçar
É o ponto neutro do conhecer a si mesmo
Plenitude é uma virtude longínqua, decerto trabalhosa
Uma ode ao espírito, mas que mata homens por cansaço
Cansa homens esforçados, mas sem vida
E homens sem vida, que nem fazem mais força

Somem-se todos os dias, milhares de segundos
E tomo meu caminho
Tomo algum vinho

Ora desfigurado, se é que tens de entender

Cada um com seus poréns
E todos contra todos.

Daniel Sena Pires – Matéria-prima (02/04/2011)