E quem disse que é necessário que você me entenda?Em nenhum momento de vida, faço fé de que isso venha a acontecerEu não preciso de ninguémÉ... talvez tenhas falado isso pra si mesmo tambémOu ao menos pensado no quão bom seria não se apegar a ninguémE que isso que soa idiota não é de todo válidoE se os outros não existissem?E se a vida durasse apenas algumas horas?E se eu pudesse escolher em que ponto da vida, essa vida não me dissesse mais como eu tenho que ser?Porque esse parece ser o ponto da questão...E tão angustiado, tão reprimidoO que custa deixar que eu seja assim?Nem que eu viesse a ser sozinhoE o que tem de mais?Por quê?Na verdade hoje eu estou um chato todoQuero que você cale a sua boca...Prenda a respiração, e me deixe aquiPor uns diasNão, eu não quero conversarNão, eu não vou desistirMas sim, vá emboraMe deixe aqui, por favorQuando o coração começa a estalarE o peito arde, e o medo é intensoO melhor a se fazer é não fazer nadaBoa noite...Boa vida!Daniel Sena Pires – “Boa” vida (28/10/2011)
Desde quando se ater aos fatos torna a vida mais suave?Mal sabia eu que, quando em paz pensei, em paz nunca estiveToda rocha que diz “não!”, mesmo quando atravessada, solidifica-se em parte na almaNovamente, prometendo angústia ... e até promovendo-se aos pares de mimOutros Eu’s que, em mim, em negro tom, matam com a facilidade do respeito negadoE me cobram sempreTrabalhos inversamente proporcionais ao confortoUm surto controlado por diaOnde se compra ar, se troca amor, se vive densoE no controle está sempre a falta de algo ... daí a mesclaDaí eu choroMas não mais que antesPenso eu, mas não quero mais pensar em pazAssim como é célebre o culto ao homem bomOu o mau homem, que, de tão mau, virou comumPois é assim que funciona, e é assim que maltrataE o comum agora é bomE eu?A prova maior de força é a força que não se usaE olhe que a covardia é uma palavra de dois gumesQue noite quente, meu DeusQue dias difíceis.Daniel Sena Pires – Atos de paz (28/09/2011)
Nessa semana, percebi o quanto perdi nos dias em que, pensando ganhar tudoMal cuidei do coração, nem corpo sãoE todas as cavidades da alma preenchidas com falsidadeAlgumas com nome e peso definidosNuma lividez tão logo desesperoPalavra-chave na fuga sempre confusaPor que sempre é mais fácil precisar de algo do que de alguém?Remoendo injustiças, sob meu julgamento imparcial e (mesmo assim) mancoOs velhos amigos estão sempre mais inteiros do que euCâmbio ... quase nada é indolorE quando se vai ... sabendo que o que ficou não nos pertence mais?Só nos resta chorar com o nome na boca do passadoAutenticando mesmo o que opôs ao que se quisQue se a vida é um mar aberto, numa imensidão de dar medo e dar prazerE o sujeito não se tem, não se quer ou suportaFica difícil praticar qualquer pazUm caminho ao se arrastarPorém sempre existem mais pedras do que se pensaAs que são, e as que nos atiram ...Daniel Sena Pires – Sete dias (12/09/2011)
Não posso acender velas pra tudoA cera arde sobre a pele, e não é porque sou euÉ porque tudo que é demais, um dia afogaOu enferruja … às vezes quebraÀs vezes mataAchei brilhante o homem que me disse “seja!!!”Também me dizer pra não ficarCom suas próprias palavras, e seu próprio desesperoMas me machucando por dentro, refletindo aqui foraAlma, corpo …Sabe as noites em que se acorda suado, com medoCansado, e se está só deitado?Dizem que os olhos são a “porta da alma”E num momento de desesperoAo ver a porta fechada, ela se descontrolaOs sentimentos que obedecem ao corpoDescontrolam a almaE quando abrimos os olhos, e os chocamos com a paredeAinda está lá … por uns dois segundosEu vi minha alma feito sombraCom meu tamanho e meu jeito de fazer as coisasMas por hora, parecemos diferentesEla não sorri, e eu simEla não gosta de sorrirEla dança, e eu nãoEla não sabe dançarE mais uma vez, os moldes de corrupção do igualE mais uma vez, menino … como sempre erreiQuero aliviar a pressão sobre o peitoA indagação sobre tudoA massa que ainda está secando …De um trabalho grande que tive de fazerPra não ter mais que pensarMas entre não fazer o que penso e não pensar no que façoPrefiro aguardar o próximo pensamentoQuem sabe é mais um daqueles sorrisos em que já estou melhor.Daniel Sena Pires – Das velas, das portas e da alma (08/08/2011)
Enquanto a música, soando célebre, ia rompendo corações desatentosEu me pus ante a todos, cansado de trilhas e metas sem sentidoE, não nego, paralisado de medoChefe da minha humilde decisãoDono de um pouco mais que eu não precisoAglomerados sujos, e imagine … ainda brancos de uma limpeza inventadaE dentro de todas as cabeças tão estranhamente tidas como solEu vi saindo pequenos sacos vaziosEspalhando o imenso nada por toda complexa existênciaQualquer um que ligasse os pontos, perceberia que foco não predispõe intençãoCorações abandonados, vidas traumáticas, infâncias despedaçadas …Vinho num quarto escuro, cigarros por sobre as cadeiras …Levando-se em conta que “não importa nada”, que “se dói é porque queremos”Fica mais fácil encarar a vidaMas mesmo assim, eu ainda fico meio de ladoTenho medo de tudo voltar, pois quando volta … arrastaMais que isso, arrasa … e sempre quebra um pedacinho de mimIndisciplina da solidão, que mostra aos olhos que tudo é lindoMas somos feios de coração, por não haver motivos iguais aos de todosRaios de sol somando-se às figuras das estrelas …Como brilhos tão parecidos dizem coisas tão diferentes?O dia que invade a noite, que nunca se entrega cedo … despencando à claridadeQuem sabe eu bole uma nova maneira de expor meus sentimentos?Fechando a boca!Mas nunca fecharei as portas …Se vier, que venha … se já foi, que sejaNão posso me esconder atrás de silêncios maltrapilhosTenho que decididamente agir, pra não faltarUm choro de alma gemendo tem me acordado ultimamenteEu olho o quarto todo, e tremo … e divagoE nunca sei onde está.Daniel Sena Pires – Dar as costas à multidão (01/08/2011)
Bem eu suspeitei que ao não saber por onde andavam minhas palavrasCertamente durante o dia não saberia me conter em equilíbrioPosso não surtar, mas não posso não sumirE não estando, grito desimpedido, quem haverá de saber?E que tantos rostos me olhando são estes agora?Sinta como eu sinto, os minutos sugando vividezO mal da angústia não é o choro, é o sal que ficaE nenhuma morte é pior do que essa em que se vivePenetrando o futuro com a lentidão possessiva dos que já saúdam outras vidasLetargia alimentada pela indiferença, más palavras, costas viradasO que não justifica perante os olhos alheios de tão fácil desprendimentoMas por dentro, carne, alma … nota-se de longe o embaraçoDeduzir planejamento sobre o que se sente, é impossívelNinguém suportaria uma vida regada com mesmice, nessa retidão paranoicaA tese dos doutores do “saber viver bem” masturba seu próprio ego“Coma o quanto puder” e “Viva por prazer e conquista … e só”Ei, nem tudo é tão pateticamente banalHoje mesmo eu não soube o que fazer com uma dorzinha que me apareceu por não entenderQuando penso em algo absoluto, rivalizo com o que eu mesmo souO “vir a ser” é cada vez mais idoQue mito doloroso, se tornando comum.Daniel Sena Pires - Mito comum (30/07/2011)
Dá gosto de sangue na bocaTentar entender a criança que ainda é toda medoDo escuro, dá pra se ver todos os focos de luzE entre eles há uma felicidade ignominiosaMas quem dança aqui desse lado, nunca está bemSer solto e liberal?Ser conde e sem casa?Não entendo onde as coisas estãoElas estavam aquiEu ando tão perdido quanto averso à vontadeA rouquidão matinal agora é pós meio diaA procura por “paz” esgota-se ainda no primeiro momentoE outra hora ouvi uma voz estranhaQue disse: “Mas não é com você”Parece bobo, e de soar tão mesquinho … parece maldadeMas não é com você, agora sim …É comigo, coisa de “eu e mim”Sempre éSempre foiÀs vezes eu vejo pessoas jogando cacos de vidro e tijolos inteiros …Em outras pessoas, pelo simples de fato de não entenderem o simples fato de que nem todo mundo tem que ser rigorosamente um particular seuIsso dóiEu já não sei o que dizerE fazer … já se tornou decepcionanteConvivo com armas, com fogoCom gente que não gosta de genteParece castigo …Eu só queria acordar sorrindoE gostar de estar de pé agoraE de ter estado em pé aos 11E de ter estado em pé aos 12Sabe?Algo ainda vai valer a penaNão é possível.Daniel Sena Pires – Cacos de vidro e tijolos inteiros (Obrigado) (27/07/2011)