quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"Boa" vida


E quem disse que é necessário que você me entenda?
Em nenhum momento de vida, faço fé de que isso venha a acontecer
Eu não preciso de ninguém

É... talvez tenhas falado isso pra si mesmo também
Ou ao menos pensado no quão bom seria não se apegar a ninguém
E que isso que soa idiota não é de todo válido

E se os outros não existissem?
E se a vida durasse apenas algumas horas?
E se eu pudesse escolher em que ponto da vida, essa vida não me dissesse mais como eu tenho que ser?

Porque esse parece ser o ponto da questão...
E tão angustiado, tão reprimido
O que custa deixar que eu seja assim?

Nem que eu viesse a ser sozinho
E o que tem de mais?

Por quê?

Na verdade hoje eu estou um chato todo
Quero que você cale a sua boca...
Prenda a respiração, e me deixe aqui

Por uns dias

Não, eu não quero conversar
Não, eu não vou desistir

Mas sim, vá embora

Me deixe aqui, por favor

Quando o coração começa a estalar
E o peito arde, e o medo é intenso
O melhor a se fazer é não fazer nada

Boa noite...
Boa vida!

Daniel Sena Pires – “Boa” vida (28/10/2011)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Atos de paz


Desde quando se ater aos fatos torna a vida mais suave?
Mal sabia eu que, quando em paz pensei, em paz nunca estive
Toda rocha que diz “não!”, mesmo quando atravessada, solidifica-se em parte na alma
Novamente, prometendo angústia ... e até promovendo-se aos pares de mim
Outros Eu’s que, em mim, em negro tom, matam com a facilidade do respeito negado
E me cobram sempre
Trabalhos inversamente proporcionais ao conforto
Um surto controlado por dia
Onde se compra ar, se troca amor, se vive denso
E no controle está sempre a falta de algo ... daí a mescla
Daí eu choro
Mas não mais que antes
Penso eu, mas não quero mais pensar em paz
Assim como é célebre o culto ao homem bom
Ou o mau homem, que, de tão mau, virou comum
Pois é assim que funciona, e é assim que maltrata
E o comum agora é bom
E eu?

A prova maior de força é a força que não se usa
E olhe que a covardia é uma palavra de dois gumes

Que noite quente, meu Deus
Que dias difíceis.

Daniel Sena Pires – Atos de paz (28/09/2011)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sete dias


Nessa semana, percebi o quanto perdi nos dias em que, pensando ganhar tudo
Mal cuidei do coração, nem corpo são
E todas as cavidades da alma preenchidas com falsidade
Algumas com nome e peso definidos
Numa lividez tão logo desespero
Palavra-chave na fuga sempre confusa
Por que sempre é mais fácil precisar de algo do que de alguém?
Remoendo injustiças, sob meu julgamento imparcial e (mesmo assim) manco
Os velhos amigos estão sempre mais inteiros do que eu
Câmbio ... quase nada é indolor
E quando se vai ... sabendo que o que ficou não nos pertence mais?

Só nos resta chorar com o nome na boca do passado
Autenticando mesmo o que opôs ao que se quis
Que se a vida é um mar aberto, numa imensidão de dar medo e dar prazer
E o sujeito não se tem, não se quer ou suporta
Fica difícil praticar qualquer paz
Um caminho ao se arrastar
Porém sempre existem mais pedras do que se pensa
As que são, e as que nos atiram ...

Daniel Sena Pires – Sete dias (12/09/2011)

domingo, 7 de agosto de 2011

Das velas, das portas e da alma




Não posso acender velas pra tudo
A cera arde sobre a pele, e não é porque sou eu
É porque tudo que é demais, um dia afoga
Ou enferruja … às vezes quebra
Às vezes mata
Achei brilhante o homem que me disse “seja!!!”
Também me dizer pra não ficar
Com suas próprias palavras, e seu próprio desespero
Mas me machucando por dentro, refletindo aqui fora
Alma, corpo …
Sabe as noites em que se acorda suado, com medo
Cansado, e se está só deitado?
Dizem que os olhos são a “porta da alma”
E num momento de desespero
Ao ver a porta fechada, ela se descontrola
Os sentimentos que obedecem ao corpo
Descontrolam a alma
E quando abrimos os olhos, e os chocamos com a parede
Ainda está lá … por uns dois segundos
Eu vi minha alma feito sombra
Com meu tamanho e meu jeito de fazer as coisas
Mas por hora, parecemos diferentes
Ela não sorri, e eu sim
Ela não gosta de sorrir
Ela dança, e eu não
Ela não sabe dançar
E mais uma vez, os moldes de corrupção do igual
E mais uma vez, menino … como sempre errei
Quero aliviar a pressão sobre o peito
A indagação sobre tudo
A massa que ainda está secando …
De um trabalho grande que tive de fazer
Pra não ter mais que pensar
Mas entre não fazer o que penso e não pensar no que faço
Prefiro aguardar o próximo pensamento
Quem sabe é mais um daqueles sorrisos em que já estou melhor.

Daniel Sena Pires – Das velas, das portas e da alma (08/08/2011)

domingo, 31 de julho de 2011

Dando as costas à multidão



Enquanto a música, soando célebre, ia rompendo corações desatentos
Eu me pus ante a todos, cansado de trilhas e metas sem sentido
E, não nego, paralisado de medo
Chefe da minha humilde decisão
Dono de um pouco mais que eu não preciso
Aglomerados sujos, e imagine … ainda brancos de uma limpeza inventada
E dentro de todas as cabeças tão estranhamente tidas como sol
Eu vi saindo pequenos sacos vazios
Espalhando o imenso nada por toda complexa existência
Qualquer um que ligasse os pontos, perceberia que foco não predispõe intenção
Corações abandonados, vidas traumáticas, infâncias despedaçadas …
Vinho num quarto escuro, cigarros por sobre as cadeiras …
Levando-se em conta que “não importa nada”, que “se dói é porque queremos”
Fica mais fácil encarar a vida
Mas mesmo assim, eu ainda fico meio de lado
Tenho medo de tudo voltar, pois quando volta … arrasta
Mais que isso, arrasa … e sempre quebra um pedacinho de mim
Indisciplina da solidão, que mostra aos olhos que tudo é lindo
Mas somos feios de coração, por não haver motivos iguais aos de todos
Raios de sol somando-se às figuras das estrelas …
Como brilhos tão parecidos dizem coisas tão diferentes?
O dia que invade a noite, que nunca se entrega cedo … despencando à claridade
Quem sabe eu bole uma nova maneira de expor meus sentimentos?
Fechando a boca!
Mas nunca fecharei as portas …
Se vier, que venha … se já foi, que seja
Não posso me esconder atrás de silêncios maltrapilhos
Tenho que decididamente agir, pra não faltar
Um choro de alma gemendo tem me acordado ultimamente
Eu olho o quarto todo, e tremo … e divago

E nunca sei onde está.

Daniel Sena Pires – Dar as costas à multidão (01/08/2011)

sábado, 30 de julho de 2011

Mito comum



Bem eu suspeitei que ao não saber por onde andavam minhas palavras
Certamente durante o dia não saberia me conter em equilíbrio
Posso não surtar, mas não posso não sumir
E não estando, grito desimpedido, quem haverá de saber?
E que tantos rostos me olhando são estes agora?
Sinta como eu sinto, os minutos sugando vividez
O mal da angústia não é o choro, é o sal que fica
E nenhuma morte é pior do que essa em que se vive
Penetrando o futuro com a lentidão possessiva dos que já saúdam outras vidas
Letargia alimentada pela indiferença, más palavras, costas viradas
O que não justifica perante os olhos alheios de tão fácil desprendimento
Mas por dentro, carne, alma … nota-se de longe o embaraço
Deduzir planejamento sobre o que se sente, é impossível
Ninguém suportaria uma vida regada com mesmice, nessa retidão paranoica
A tese dos doutores do “saber viver bem” masturba seu próprio ego
“Coma o quanto puder” e “Viva por prazer e conquista … e só”
Ei, nem tudo é tão pateticamente banal
Hoje mesmo eu não soube o que fazer com uma dorzinha que me apareceu por não entender
Quando penso em algo absoluto, rivalizo com o que eu mesmo sou
O “vir a ser” é cada vez mais ido
Que mito doloroso, se tornando comum.

Daniel Sena Pires - Mito comum (30/07/2011)

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Cacos de vidro e tijolos inteiros




Dá gosto de sangue na boca
Tentar entender a criança que ainda é toda medo
Do escuro, dá pra se ver todos os focos de luz
E entre eles há uma felicidade ignominiosa
Mas quem dança aqui desse lado, nunca está bem
Ser solto e liberal?
Ser conde e sem casa?
Não entendo onde as coisas estão
Elas estavam aqui
Eu ando tão perdido quanto averso à vontade
A rouquidão matinal agora é pós meio dia
A procura por “paz” esgota-se ainda no primeiro momento
E outra hora ouvi uma voz estranha
Que disse: “Mas não é com você”
Parece bobo, e de soar tão mesquinho … parece maldade
Mas não é com você, agora sim …
É comigo, coisa de “eu e mim”
Sempre é

Sempre foi

Às vezes eu vejo pessoas jogando cacos de vidro e tijolos inteiros …
Em outras pessoas, pelo simples de fato de não entenderem o simples fato de que nem todo mundo tem que ser rigorosamente um particular seu

Isso dói

Eu já não sei o que dizer
E fazer … já se tornou decepcionante

Convivo com armas, com fogo
Com gente que não gosta de gente
Parece castigo …

Eu só queria acordar sorrindo
E gostar de estar de pé agora
E de ter estado em pé aos 11
E de ter estado em pé aos 12

Sabe?

Algo ainda vai valer a pena
Não é possível.

Daniel Sena Pires – Cacos de vidro e tijolos inteiros (Obrigado) (27/07/2011)