... é estranho, abri a janela, e um rapaz gritou do lado de fora:“Acredite, se quiser... o que você pensa não importa pra ninguém”IDIOTA, foi o que me veio à ponta da línguaDaí, desci pro café, já com saudades do sonoPensei cá comigo mesmo:“Sabe o que vou fazer hoje? Reparar em como meu dia consegue acabar comigo, ou reparar as arestas da minha infelicidade interna, propondo, assim, que eu me suporte.”Chega de pensamentos infelizesNão há nada pior do que ficar esperando dor o tempo todoO otimismo, sorrisinhos descontrolados, isso tudo me assustaNão sei exercitar falsidadeNunca soubeMas não custa nada me por de ladoSe o mundo quer que eu não lhe faça mais parteQue seja, fico aqui com minha alma e meu conjunto... Dois ou três amigos, e uma massa de modelar viva, com a qual ainda consigo compor uma ou outra distraçãoÀs vezes anseio tanto que alguém me entenda...Que, por algum tempo, nem eu mesmo me conheçoEu sou egoísta, se não tenho idéia do que sinto, como cobrar isso de outrem?Não faz sentido, faz?Me sinto falho, borrando essa maquiagem podreMeu batom de migalhas, minha peruca Chanel, perfumes baratos em embalagens importadasOlhe bem dentro dos meus olhos, e me diga...Diga algoPor favorChame alguém da minha família, e peça ajudaChame o meu amor de voltaMe ajude a escolher o que dizer quando ninguém mais suportar me ver por pertoVocê só precisa saber uma coisa sobre mim:Não me importo... E, mesmo assim, perco o sono com qualquer coisinhaE eu estou desesperado... Me sinto como um homem já de certa idadeSentando numa praça, jogando milho aos pombos, todos mortosColhendo as rosas, todas mortasE voltando pra casa, revendo a todos, todos mortosTudo é tão infinitoÉ maior do que a face da terraE cabe aqui dentro...Talvez seja isso pulsandoE eu não dormi muito bemQuem sabe seja isso movendo meu medo por onde quer que eu váE eu não tenho raiva, acho que já a engoli todaIndigestão fadigada, confusa... OdiosaAs unhas cresceram, a barba cresceuO preço que eu pago continua crescendoE... Meu Deus, já são 4hs da manhã de novoDaqui a pouco, preciso abrir a janelaAté quando?Daniel Sena Pires – Até quando? (07/01/12)
Numa dessas madrugadas que duram dias inteiros...Sentado em uma cadeira, e o pensamento amordaçando o alívioComo se a morte fosse arauto desse alívioQue calor é esse?O suor pingando o quarto todo...E a raiva enlouquecendo minhas mãosCom quanto desprezo hei de encarar o espelho amanhã cedo!Isso desperta o gigante do vícioE não acordar é uma opção de fatoA minha vitamina de espírito é a convivênciaO fato de extrair coisas boas de alguém, e lhe oferecer meu ombroOu lhe pedir abrigo, e lhe oferecer minha eterna gratidão...É constantemente tomado de medo, quando, na minha cara...Sou humilhado por coisas que eu tento esquecerLá, a vitamina é veneno, e os prazeres são suicidasPor favor, se me vir sorrindo por aí...Só me deixe passar, não me faça ver que você não me conheceSabe quão ridículo eu me sinto, por ter que ficar conversando sozinho?É difícil, às vezes é tão difícil quanto o ponto finalEu tenho culpa nisso tudo?Devo ter, não seiDevo ter ficado tão louco, tão louco...Que na minha loucura, eu estou sempre tristeE tão triste, tão tristeQue dentro do meu espaço de loucoSó há minha identidade triste, meu sorriso tristeE minha vida mendigando cortesia, sinceridade, mendigando a própria vidaMe prostituindo pessoalmente pra conseguir disfarçar meu sofrimentoSituações perigosas merecem soluções drásticas?É claro que não, ninguém joga pedras em um moribundoA não ser alguém com um coração vazioSituações perigosas pedem por resoluções contidasQue eu grite então!Mas que grite com os olhosE deixe meu silêncio ecoar pelo universoO ruim da vida é que sempre que você começa uma escalada difícilFora o estado íngreme em que a mesma se encontraExistem ainda aquelas pessoas de humanidade duvidosaQue nos transpassam com palavras e pensamentos aterradoresCom uma maldade de fazer frente aos reisE uma estupidez de entristecer o criadorEu sou forte, e vou ficar bemEu sou bem, e vou ficar forteDe qualquer maneira, estou mentindoEstou cansadoEstou...Eu souMeu Deus... Eu sou.Daniel de Sena Pires – Gritando com os olhos (03/01/12)
Sentei em frente à vidraçaTalvez fosse dia ainda, mas nem importava muitoO último cigarro ainda enchia a sala de fumaçaDa garrafa de vinho, talvez só duas gotas na rolhaE hoje não é dia pra mais umaComo tudo se tornou isso?Como as coisas são tão fúteis agora?Pela manhã, o cansaço é espiritualJá à tardinha, o corpo pede menosE o dia vai-se indo, e não deixa força alguma“Ah, mas viva o dia... você é o que você faz”Alguém gosta de derrotas?Ser vencido pelo tempo é uma maldiçãoSer vencido pela vida, é aceitável... Mas não é certoSer vencido pela alma...Mudei o pensamento, que tal lembrar a infância?Melhor nãoOutro dia, me socorri aos prantos lendo um pouco de BukowskiE depois sorri, afinal, optei por ser assimConcorda?O detalhe é que há tempos não me importa concordar com ninguémE não, ninguém escolhe as cicatrizes que quer carregarE nem as feridas que se vão abrirNinguém quer sofrerE só eu não consigo entender issoA impressão é de que vivo cercado por gêniosE todos têm a cura nas mãosMas ninguém tem um inferno por dentroE ninguém está cuidando de ninguémEu me esforço, o bastante... É o bastante?Eu faço o que eu posso fazerFaço?Eu não queria confusão com ninguémAcabei me confundindo comigo mesmoEu sou uma ave de rapinaUm pequeno pardalUm roedor indefesoE uma taça quebrada...Não consigo transbordar, em nadaNo fim das contas, acabo sempre secando, fugindo...Daniel Sena Pires – No fim das contas (31/12/11)
Há quem diga que caminhar com cuidadoÉ pisar com a certeza que quem amaPois sozinho, ninguém ganhaE dizem mais...Dizem que a esperança é um futuro amareloQue o bom mesmo é desviar dos acasosVencer todo dia, mesmo que doaE vai doer, uma hora ou outra... Às vezes anos inteirosO bom é ter-se em mente que...Seja vida, seja sorte, seja coração, seja pensarO poder de governo é nossoNão existe isso de ganhar maisAmar maisSofrer maisO que é existe é a vidaEntrega e...SuperaçãoQuando as coisas não vão bemAquele tempo que poupamos...Descontando as horas extras de medo e angústiaCai bem...Quem sabe no meio do coloE é bom olhar pro relógio, e ver o tempo passarUm dia é tic, no outro o tac E assim vamos...Hoje estou tentando um bom dia, todo diaÀs vezes, eu choroMas não é culpa minhaE se eu perco, ao menos...Não me desespero mais.Daniel Sena Pires – Por alguém por aqui (23/12/11)
Quem nunca viu, cedo, na matina, o corpo, ainda preguiçoso, repulsar o dia?Bem, tudo é composto de querer...Se hoje você está triste, o seu querer não é obrigatoriamente longínquoEle pode até lhe ser vizinhoPode lhe ter castrado a vidaTer cuidado com o que se deseja, é cuidar pra não morrer pela bocaOu morrer pelo corpo, pelo bolsoPela casa, pelas maniasPelo despreparo, pela impulsãoÉ cuidar de si, como se os seus pedidos fossem realmente atendidosNão adianta olhar pro céu e abanar papéis em busca de consolo...Se você se dissolve em seu próprio desesperoA angústia aprisiona, mas a liberdade é um bem...E, como todo bem, ela mesma precisa de proteçãoEm prol de nós mesmos, acredite...Só nós mesmosHarmonia entre homens e outros homens...É tão fácil quanto a vida de uma criança bandidaDe uma mulher mal amadaDe uma alma maltratadaO peso do passado, às vezes nega-nos até o próprio sonoO descanso que é bem-vindoVida curta ao passadoQue quando o presente tiver ido, e no futuro nos encontrarmosFantasmas e dores imprecisas, tenham ficado...Não no esquecido, pois não aconteceráMas sim, submissas, sob camadas de esperança.Daniel Sena Pires – Vida curta ao passado (13/12/11)
Viver vale tanto quanto o ser se pode amarE meu ser é todo amorPois aprendi que, mesmo em dor, posso voltarE no topo, com minhas decisõesJurando medo, ou minhas confissões...Beijando sangueEstá tudo que disponhoE nada me prendeSou dono da minha liberdadeConcedo-a a mim, quando bem me queroDifícil é render seu próprio coração...Preocupado com o coração dos outrosTer “certeza” do que se senteNa espera do vão alheio não mais existirE eu sou assimNão disse que era fácilNem disse que é bonito, feio, ou azulA complexidade da minha face...É solta ao mundo, como eu souNão sou dado, sou conquistadoE não sou tudo, mas pratico intensamente o meu “talvez”Um quase poliglota bêbado de sono da sorteMas apostando altoCom as fichas sempre ardendoEu sei onde estou pisandoMas, mesmo assim, às vezes, tenho medoÀs vezes eu sonho com a tarde em que vi alguém me verE dá saudadesÀs vezes nenhuma coisa me alivia essa saudadeE dá raivaMeu ser é tão amante, coitado...Sofre tão angustiado...É horrível viver sempre com essa impressão de que...Falta tão pouco, e que vou ser feliz.Daniel Sena Pires – Não fosse o sol (11/12/11)
Vira e mexe, eu sonho alto, que no espaço não há fim pro meu quererComplicado, às vezes eu luto sozinhoSem culpar ninguém, é meu melhor jeito de ser felizQuando eu grito muito, é sempre precisando de proteçãoDemonstro fraquezas adversasCatequizando todos os meus sentimentosVendando os olhos do fracasso internoQue acompanha toda e qualquer diversãoEu juro que não estou sorrindoE o sofrer é o padecer da culpaE isso é o que mata por dentroNão basta só doer, a dor fica te culpandoA cabeça numa matemática devastadoraNuma incompreensão de dar emprego à morteFugir?Eu só não posso mais ouvir só barulhoO uivo dos lobos viciadosPois chegou a hora de roubar pazQuero algo pra encostarUm pouco de voz pra ouvir Um pouco de tom, ao falarEu não tenho medo de mimOu eu não posso ter.Daniel Sena Pires – O uivo dos lobos viciados (07/12/11)